Sabe quando você quase morre? Pois é, nem eu.
Mas, duas semanas atrás, eu descobri que quase morri — e eu não estou sendo dramática.
Esse texto cita cirurgia, câncer, depressão e crise de pânico. Recomendo parar por aqui se não quiser ler sobre. :)
A história começou bem inocente: eu bati o polegar num pedaço de madeira. Não inchou, não ficou roxo, mas doeu bastante e eu não conseguia mais dobrar o dedo. Dez dias depois, não tinha melhorado muito, então fui a um PA com ortopedista.
Uma tendinite causada pela batida.
Eu estava com uma dor nas costas chatinha e aproveitei para comentar. Ele me passou para a clínica geral.
Aí ficou interessante.
A doutora me examinou e pediu um raio-X. Eu fiz, o sistema demorou e ela foi fazer uma sutura. Eu, com fome e sem paciência, evadi depois de tentar que outros dois médicos olhassem o exame para me liberar — eram umas 17h e eu tinha chegado lá às 11h30.
Eis que, em casa, menos de 40 minutos depois, a própria doutora me liga pedindo para eu voltar ao hospital, oferecendo até pagar um Uber se precisasse.
Claramente preocupada.
Voltei esperando o pior, sem nem saber o que seria “o pior”, e ela estava me esperando com um pedido de tomografia sem contraste. Fiz. Mais quatro horas esperando, troca de plantão, mas a doutora pediu que atualizassem ela porque o negócio parecia sério.
E era.
Mas não como ela pensava — ou foi o que pareceu.
Sabe esperar o pior? Era pior do que eu esperava.
A suspeita inicial era uma perfuração no intestino. O diagnóstico, que veio três dias depois, em outro hospital, foi obstrução do intestino com perfuração, abscesso e pus.
Na terça fiz a tomografia com contraste e, na própria terça, fui internada. Na quarta recebi o diagnóstico. Na quinta operei.
Laparotomia com retossigmoidectomia e confecção de colostomia.
Uau.
Basicamente, sexta eu era uma depressiva com síndrome do pânico e ansiedade generalizada. Quinta eu era uma sobrevivente PCD.
What a hell of a week.
Depois de oito dias de internação, na primeira noite em casa, a ficha começou a cair.
Paciente oncológica. Ostomizada. Esperando a biópsia para descobrir o nome e o sobrenome do tumor que foi retirado junto com parte do intestino. Qual tratamento seria feito.
E aí veio o medo de morrer.
Mas não por medo da morte.
Pelo tempo com a minha família que me seria tirado. Pelos sonhos com meu marido. Pelo crescimento da minha filha. Pelo puro medo de perder tudo isso.
No dia seguinte, outra quinta-feira, outra crise de pânico: o primeiro banho, a primeira troca da bolsa por conta própria. A primeira vez que eu vi e encostei na cicatriz, no estoma, e chorei pelas mudanças no corpo.
A autoestima já não estava alta no pós-parto. Com a cicatriz e a bolsa, então...
Fico feliz em reportar, porém, que 12 dias depois da cirurgia o sentimento que mais me acomete é gratidão. Pura e simples.
Gratidão pelas pessoas que Deus colocou no meu caminho. Gratidão por eu ter mencionado a dor nas costas. Pela doutora ter me ligado. Pela decisão de trocar de hospital. Pela cirurgiã que me internou. Pelos cirurgiões que me operaram. Pela minha maravilhosa rede de apoio. Pela quantidade enorme de orações que recebi. Pelo marido maravilhoso que eu tenho.
O doutor falou que, com mais uma semana daquela obstrução crescendo, eu provavelmente chegaria ao hospital em sepse, direto para uma cirurgia muito mais complicada e correndo sérios riscos.
É surreal pensar quão perto eu estive da morte sem nem saber.
É tão surreal quanto saber que sobrevivi. Que ainda estou aqui, mesmo com todas as chances que isso teve de dar errado.
Sigo me acostumando com a bolsinha, aprendendo com meu corpo — mesmo que ele tenha resolvido não me dar UM mísero sinal de que algo estava muito errado — e me adaptando a essa nova realidade.
Um passo de cada vez.
E sinto que o mais difícil, até agora, passou: a cirurgia.
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